Chronos do Tempo

O mundo dos relógios e jóias
Apologia do Luxo
05/Mar/2014

O Homem é o único animal com a capacidade de contemplação: a capacidade de apreciar a beleza, o prazer, o conforto e tudo o que transcenda a sua vida quotidiana árida e rotineira, cujo único propósito é o de garantir a sua sobrevivência e a sobrevivência da sua espécie. A libertação do Homem traduz-se na necessidade de transcendência. A Estética, o Amor, a Religião e o Luxo cumprem esse papel. O Luxo, através dos seus objetos de exceção, consubstancia essa busca de prazer e emoção. O prazer de possuir e de contemplar objetos raros, belos, únicos, intemporais e resultantes de verdadeiros atos criativos singulares, fruto do amor, do engenho e da superação humana. Acreditamos que a beleza dos objetos e da Natureza que nos rodeia, nos torna também mais belos e mais felizes.

Possuir e exibir objetos de Luxo tem permitido também ao Homem a criação de um código social que o orienta na relação com o Outro, em sociedade. Uma espécie de vantagem competitiva que o distingue ou que o afilia ao grupo social a que pertence ou ao que quer pertencer. Numa sociedade mais democrática e méritocrata que incentiva a permeabilidade social, esta questão de representação social, que o Luxo ajuda a definir, tem desempenhado um papel fulcral.

Mas o Luxo cumpre ainda outros papéis na sociedade e economia contemporâneas.

Antes de mais, é um universo altamente criativo que tem contribuído, e muito, para  a sofisticação estética de outros segmentos e indústrias. A emergência do conceito premium e o sucesso do fast fashion, são disso exemplo. Sem a criatividade das marcas de Luxo, muitas outras marcas com sucesso, noutros segmentos, não existiriam. O Luxo constitui também um contraponto à economia descartável em que vivemos. A intemporalidade dos seus objetos de exceção, além de contribuir para uma economia mais sustentável (ambiental e socialmente), contraria o consumo desenfreado, motivado pela novidade, e estabelece uma relação mais saudável e autêntica como a criação. Esta relação mais substancial alimenta, consequentemente, um espaço criativo e de desenvolvimento sem contingências temporais, única forma de produzir a excelência.

Embora seja uma pequena economia à escala global, o mercado do Luxo tem relevância económica. Desde já, porque alimenta um grupo de consumidores importante e crescente que constitui um dos mais relevantes motores de consumo da sociedade contemporânea. Este aspecto é particularmente relevante para a economia europeia que, em resposta à potência Industrial chinesa, quer ver 20% do seu PIB até ao final da segunda década, associado à indústria criativa e cultural do Luxo e da Moda. Indústria essa que, colateralmente, muito tem contribuído para a imagem de uma Europa requintada e sofisticada, capaz de atrair 50% dos turistas mundiais. Economicamente, o Luxo tem ainda um papel relevante e comprovado na produtividade. O que motiva o ser humano a superar a sua condição, trabalhando mais e melhor, é o desejo legítimo de ter uma vida melhor, mais bela e mais confortável. E o sonho ainda não é um luxo: é algo a que todos nos podemos permitir.

Mónica Seabra Mendes é coordenadora do Programa Executivo em Marketing de Produtos e Serviços de Luxo da Universidade Católica de Lisboa
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