Chronos do Tempo

O mundo dos relógios e jóias
Complicações, para quê?
25/Mar/2014

Quando se aborda a temática das “complicações relojoeiras” a pergunta titular é inúmeras vezes formulada e não há dúvida que a questão é pertinente.

A resposta de qualquer fundamentalista “negativista” seria, simplesmente: PARA NADA! E teria as “suas” razões.

Se não, indaguemos: quem utiliza realmente as complicações que os seus relógios comportam?

Tomemos por exemplo a mais trivial das complicações, o calendário “simples”, que nos indica apenas a data. E que corresponde a um acréscimo duma mera dúzia de peças(1) às do movimento de base. Este dispositivo mecânico, para ser útil, só precisa de ser acertado manualmente 5 vezes por ano, ou seja, nos meses que não têm os 31 dias correspondentes a uma volta completa do disco de calendário. Ora, quem quiser dar-se ao trabalho de verificar quantas datas andam certas nos nossos relógios, vai ter uma surpresa, porque são poucas!

Extrapolando, para outras complicações do grande grupo das indicações ditas astronómicas, seria um fartote. Lembremos, por exemplo, as indicações das fases da lua que tanto embelezam um mostrador. Quantas andarão certas?

E a “equação do tempo”, hoje em dia, para que serve? A quem interessa saber permanentemente a diferença entre o “tempo solar verdadeiro” e a hora oficial, já não TMG/GMT mas TUC/UTC?

Ou ainda, turbilhões para quê? Se está comprovado, como era óbvio, que o efeito deste dispositivo nos relógios de pulso é muito reduzido em relação aos relógios de bolso, para os quais foi concebido.

Com raras excepções, como é o caso do manuseamento do cronógrafo, é incontestável que grande parte das complicações tem pouquíssima utilização prática por parte dos seus possuidores.

Poderíamos continuar a questionar a utilidade de muitas outras complicações relojoeiras, mas seria fastidioso e, quiçá, improfícuo. Pois, pela mesma ordem de razões, teríamos porventura de questionar, por exemplo: ARTE, para quê?

Logo agora, que a colecção Miró do famigerado BPN está a gerar tanta polémica, sobretudo quanto aos milhões que vale. Ainda por cima, do meu ponto de vista, obras dum artista que corresponde ao jocoso paradigma dos grandes pintores modernos: aqueles que em criança desenham como gente grande e quando adultos garatujam como crianças!

Dentro daquela mesma lógica, teríamos ainda de perguntar: coleccionar objectos excepcionais, para quê?

E, porque não, questionar também o investimento em artefactos duradouros e intemporais, de elevado valor concentrado numa pequeníssima volumetria, com sólida cotação internacional e enorme mobilidade aduaneira.

No entanto, se partirmos da premissa de que a aquisição de relógios mecânicos complicados não tem essencialmente a ver com a sua utilização, mas que, para além do seu valor intrínseco, tende a satisfazer o desejo de possuir algo emblemático, expoente do engenho e arte do génio humano, então a perspectiva passa a ser outra.

Porque a perfeição e beleza que se encontram na mecânica pura dos maquinismos de relógios de alta qualidade, não têm realmente paralelo. A fabricação das múltiplas micropeças duma “complicação” exige um nível de precisão e perfeição de acabamento que raia o inverosímil. Só assim o seu funcionamento pode atingir aquela exactidão prodigiosa e uma harmonia quase celestial.

Parece-me que não vale a pena adjectivar mais a temática. Para resumir a minha posição, talvez bastasse confessar que se me saísse o Euromilhões, compraria seguramente uma repetição de minutos(2), um calendário perpétuo(3) e um cronógrafo de recuperação(4) (rattrapante), de marcas de prestígio consolidado. Assim mesmo, em separado, os expoentes máximos dos três grandes grupos de complicações: sonoras, astronómicas e medição de intervalos de tempo independentes. Sublinho o em separado, porque os três dispositivos conjuntamente num mesmo relógio constituem a verdadeira “grande complicação”(5). Só que para uma jóia dessas eu já precisaria de um “jackpot”, para poder ficar com uns trocos para outras mordomias e projectos antigos.

Bem, é melhor ficar por aqui nesta charla sobre relógios de sonho, antes que os sonhos também passem a pagar imposto.

                                            

 

- Imagens:

1 – Calendário simples, a mais simples das complicações

2 – Repetição de minutos, a sublime música horológica

3 – Calendário perpétuo, a síntese dos movimentos celestes

4 – Cronógrafo de recuperação, um prodígio da mecânica

5 – Grande complicação, um relógio de sonho

Grande complicação, um relógio de sonho
Cronógrafo de recuperação, um prodígio da mecânica
Repetição de minutos, a sublime música horológica
Calendário perpétuo, a síntese dos movimentos celestes
Calendário simples, a mais simples das complicações
Relojoeiro diplomado aos 15 anos, foi de imediato contratado pela Indústria Relojoeira Suíça, recebendo uma vasta formação complementar naquele país, primeiro para assessorar o Professor suíço enviado para reformar o ensino da relojoaria em Portugal e, posteriormente, para o substituir. Licenciado em Supervisão Pedagógica e Gestão da Formação, dirigiu durante 30 anos a única Escola de Relojoaria do país, sendo também responsável pelos programas de aperfeiçoamento e actualização tecnológica dos profissionais de relojoaria portugueses e autor dos respectivos manuais. Embora aposentado, continua a ministrar formação no domínio da relojoaria, para diferentes marcas e empresas do sector.
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