Chronos do Tempo

O mundo dos relógios e jóias
"Danças...com tubarões" - Uma experiência inesquecível
04/Set/2017
"Danças...com tubarões" - Uma experiência inesquecível, Photo Szilard Janko

Há paixões assim. Podia ser um "petisco" para o mítico tubarão branco, mas a curiosidade e a concretização de um sonho, levou Sónia Pereira de Sousa Ell até às aguas azuis e cristalinas das Caraíbas para os descobrir e com eles nadar. Foi o primeiro mergulho; o primeiro de muitos e o mais inesquecível. Como se fosse um filme: "Danças... com tubarões"    


O meu elemento não era o mar. Quando era pequena, não conseguia pôr um dedo do pé dentro de água que tivesse algas. Não suportava a ideia de não conseguir ver o que estava dentro de água.


Quando via os documentários de Jacques Cousteau, com os quais a minha geração cresceu, e graças a ele podemos hoje fazer mergulho autónomo, deitava-me no chão da sala e imaginava que estava inundada de água até ao tecto (o pé direito da casa de família são 3m), onde nadava de apneia por entre os móveis e cadeiras, passando por baixo das bandeiras das portas para passar para as outras divisões da casa.


Assim cresci com um misto de vontade de concretizar o imaginário onírico aquático e o medo que tinha de entrar na água que tivesse algas. Via também com algum horror e claustrofobia o mergulho em grutas ou navios naufragados e, até à idade de jovem adulta, dizia que nunca o conseguiria fazer! Nem que me pagassem, costumava dizer!


De todo o panorama, os animais, mesmo assim eram aqueles que menos confusão me faziam. Tinha sido habituada desde os 2 anos a não temer qualquer animal, a respeitá-lo sim, a temer não! A minha mãe costumava pôr a minha pequena mão espalmada no chão do jardim da casa de família, em Lisboa, para demonstrar que os animais, como minhocas ou insectos que iam a passar, mesmo fazendo caminho sobre a minha mão, não eram absolutamente ameaça nenhuma. Cresci sem aqueles medos típicos das crianças quando vê um bicho, e sem aquele instinto horroroso de matar todos os bichos que se cruzam no nosso caminho. Seja ele qual for.


Depois veio o Jaws... o filme que, na minha opinião, marcou, 'mentecapitalizou' / estupidificou pelo menos 3 gerações, contra os tubarões, principalmente o branco, lançando um medo colectivo histérico contra estes seres incompreendidos e vítimas de acusações infundadas. A partir daí, o ser humano passou a justificar tudo o que envolve os tubarões e os seus actos naturais pela bitola da fraquíssima produção de Steven Spielberg e sequelas dos realizadores que se seguiram.


Tinha 13 / 14 anos quando vi, no cinema, o primeiro Jaws da minha vida. Cresci a acompanhar o ódio que em todo o Mundo se gerou por causa de uma produção alarmista e sem fundamento. Do meu lado gerou uma infinita curiosidade sobre a espécie "elasmobranchii". Lembro-me de procurar, com essa idade, informações nas enciclopédias que tinha em casa (sim, a internet ainda estava para ser inventada e disponibilizada ao comum dos mortais), num misto de frio na barriga e curiosidade em aprender sobre um animal cujo nome é usado sempre com conotações negativas, sobre o qual se papagueiam informações incorrectas que se ouvem em horário nobre, como sendo cientificamente comprovadas... pelos jornalistas.


Na idade de jovem adulta faço o baptismo de mergulho em Maceió. Lembro-me que não dormi nada na noite anterior. A ideia de finalmente enfrentar um dos meus poucos medos manteve-me bem desperta, tempo também usado para imaginar várias situações que pudessem acontecer, num misto de excitação pela antecipação, pânico primordial e vontade de desistir.


De manhã estava com uma quebra de tensão (sofro de tensão baixa) mas não queria que nada me impedisse esta experiência.


Num "briefing" muito rudimentar, a bordo da embarcação, sobre águas límpidas, cheias de vida tropical típicas de águas com 25 graus, fiquei a conhecer alguns códigos de comunicação básicos e equipamentos que precisaria de utilizar. E a assinatura de um termo de responsabilidade. Para o bem ou para o mal estava pronta a batizar-me no mergulho.


Aquele primeiro momento, enquanto começava a submergir, a respirar pela primeira vez de uma forma artificial, causou-me alguns bloqueios e tinha tendência para reter o ar nos pulmões e não o expirar como devia. Foi um início conturbado e que não me deu muita segurança para a actividade, apesar de ter sido um mergulho de 4m.


Só alguns anos depois, me foi sugerido tirar o curso de mergulho. Se o que me caracteriza é enfrentar obstáculos e medos, achei que este desafio seria uma óptima solução para ultrapassar o receio de nadar em água com algas, ou aquela experiência pouco conclusiva do baptismo de mergulho no Brasil.


Fui então fazer a primeira certificação de mergulho (OWD) nas águas quentes de Fuerteventura, num -ido- mês de Outubro. Seguiram-se 5 dias intensos de mar, testes, livros, tabelas de mergulho, equipamentos diversos e terminologia nova. Num dos mergulhos em mar, vivi uma experiência um pouco absurda mas que pode acontecer aos mergulhadores: vertigens.


Nunca sofri de vertigens em toda a minha vida, e a primeira vez foi justamente a 7m de profundidade, em que o fundo estava a 25. Estava com dificuldades em tirar a água da máscara e o restante grupo já tinha descido. O meu instrutor voltou para trás para ver o que se passava comigo e ali estava eu a debater-me com água na máscara. Indicou-me com o polegar virado para o fundo, um dos códigos da 'língua de mergulho' que devia submergir mais um pouco.


Sem lhe obedecer, continuava a debater-me com a água na máscara. O instrutor perdeu a paciência e pondo-me uma mão na barriga e outra nas garrafas, inverteu a minha posição horizontal para um ângulo de 45 graus, com a cabeça virada para baixo. Subitamente estava a fazer praticamente o pino sobre o vazio do infinito azul, onde até esse momento não tinha tido a noção da profundidade, pois a máscara não permite visão periférica por causa da borracha que envolve o vidro. A sensação de cair foi inevitável! Senti que ia cair aqueles 25m!


O meu cérebro tinha-me criado uma armadilha com uma situação de perigo, pânico e vontade de fuga que seria compensada com um choque de adrenalina, obrigou-me a espernear e a querer voltar à posição horizontal ou mesmo a sair da água. O meu instrutor percebendo o estado em que fiquei, calmamente, tirou o seu próprio regulador e esboçou um largo e irónico sorriso, de boca escancarada, para literalmente gozar comigo e ao mesmo tempo para me aliviar o stress, pois, naturalmente não corria qualquer perigo.


Alguns anos passaram, alguns mergulhos também. Em menor número dos que os que gostava de já ter realizado, mas os possíveis para o tempo disponível para além das minhas responsabilidades e entrega profissional.


...a minha primeira vez


Lá veio a época em que comecei a tentar aliar o mergulho aos tubarões. Comecei a ficar mais atenta onde isto poderia ter lugar. De forma crescente 'buddies' de mergulho iam-me provocando mostrando vídeos com as experiências com tubarões que tinham feito por esse Mundo fora. E a minha vontade crescia com essas visualizações. E fui a primeira vez às Maldivas. O presente que a Natureza me ofereceu no meu dia de aniversário, foi um tubarão "black tip" desviar-se da sua rota para me rodear, curioso, por alguns minutos, a uma distância, que ele próprio achou segura, e depois continuar o seu percurso. Este momento inesperado vou guardar para o resto da vida. Vindo do nada, sem esperar, tive 'o' encontro imediato da minha vida e a realização de um sonho! O primeiro encontro, pelo menos.


Claro que o batimento cardíaco aumenta. Claro que todas as imagens, notícias que ouvi durante toda a minha vida me condicionam o estado de espírito do momento. Por outro lado, os conhecimentos que entretanto obtive durante todos os anos de auto-didatismo me mantinham em equilíbrio e calma, pois sabia que um tubarão tenta morder em circunstâncias muito particulares. Mantive-me apenas em contacto visual com o périplo que o animal fez em meu redor. Foi um momento mágico, pois estava sozinha, os "buddies" mais próximos nem se aperceberam pois estavam mesmo assim muito longe.


No atol, ao cair do Sol, um dos funcionários nativo das Maldivas, Sonu, costumava fazer "shark feeding", como uma espécie de espetáculo para os hóspedes. Desde que o atol havia sido inaugurado, 4 anos antes, que começaram por estar numa pequena embarcação ao largo, habituando os tubarões todos os dias a mesma hora a receber peixe fresco. Com o passar do tempo foram aproximando a embarcação do resort, usando a mesma técnica, até que no porto de abrigo, com água pela cintura, passou a ser habitual ao pôr do Sol, os tubarões virem literalmente pedir peixe fresco ao funcionário destacado para tal.


Não podia deixar de querer participar neste festim. Pedi autorização ao resort e no pôr do Sol do dia seguinte, para pânico dos outros hóspedes e comentários assustados, entrei na água (pela cintura), ao lado do funcionário esperando pela minha recompensa: dar de comer a tubarões. Tínhamos que estar em silêncio e ter paciência. Foi esse o "briefing". E assim fiz durante algum tempo, enquanto o funcionário deitava a partir de uma caixa de plástico, sangue de peixe para a água.


Passado algum tempo, o olhar treinado do nativo, mesmo no lusco-fusco, conseguiu detectar sombras na água, e anunciou: 'aí vêm eles!' Sem saber para onde olhar, procurava incessantemente o mesmo que Sonu tinha avistado. Mais uma vez, sem aviso prévio, vi-me rodeada de alguns tubarões de todas as idades, que andavam lentamente em círculos e se notava que cautelosamente tentavam perceber se corriam perigo para se alimentarem desta forma ou não.


Os restantes hóspedes que até então se tinham mantido em silêncio, naquele momento faziam comentários nervosos uns com os outros, nas suas respectivas línguas. O festim ia começar. Tubarões adultos e juvenis circulavam à nossa volta. A pouco e pouco iam encurtando o diâmetro do círculo, perdendo o receio de se aproximarem. Com o peixe na mão, dentro de água, começamos a ter finalmente a atenção dos tubarões. Eis que o primeiro vindo por trás de nós, abocanha um dos pedaços de Peixe e como não o largava, esteve ali um pouco a lutar e a puxar até que deixei ir. Assim foi durante algum tempo, em vários episódios como este. Os mais velhos, com cerca de 1,5m, eram mais prudentes, os mais jovens, com cerca de 50cm, arriscavam mais. À medida que iam ficando saciados ou perdiam o interesse iam desaparecendo nas águas, agora escuras, pois a noite já se tinha instalado. O meu corpo vibrava com a emoção de ter vivido mais esta experiência e de ter estado em contacto directo com estes animais maravilhosos.


Depois vieram planos mais estruturados: Miami. Fiz pesquisa na net e descobri uma empresa para ir um pouco mais à frente no meu sonho. Sou absolutamente contra a existência de animais em cativeiro, seja qual a sua forma ou conceito, abomino espectáculos com animais (não entendo qual o interesse de ver animais que foram brutalmente forçados a fazer truques) e tenho "mixed fellings" sobre "shark feeding", apesar de ter participado na tal experiência nas Maldivas. Essa sim, mudou hábitos nos tubarões locais. Mas pesando os prós e contras, achei esta empresa era a que em termos de experiências de "shark feeding", não altera os hábitos ou cria dependências alimentares por parte do ser humano.


...fora da jaula


Lá fui para Miami com o único objectivo de o fazer. West Palm Beach era o ponto de partida. Depois de algumas horas a conduzir, lá dei com a Marina e a empresa (Florida Shark Diving). Ia com uma amiga e só tínhamos visto as fotos na net. Eu iria para a água e a minha amiga aproveitaria o passeio de barco. Mal chegámos, o Bryce Rohrer avisou que as condições do mar não eram as melhores e que não sabia se a saída se ia concretizar.


Fiquei frustradíssima, afinal tinha ido a Miami de propósito para nadar com tubarões! Pedi por tudo para irmos à mesma. E lá fomos. A uma hora de West Palm Beach e a 2 das Bahamas, encontrámos um "spot" onde o barco ficou à deriva, com o motor desligado e começaram os procedimentos que me levariam a 6 horas da experiência da minha vida! Depois de um breve "briefing", foi dito que as condições do mar não eram favoráveis a usarmos jaula, pois a água estava muito agitada.


Naquele instante ouvi o eco da voz do meu pai que antes de eu viajar me tinha dito: 'espero que não ponhas as mãos ou os dedos fora da jaula!' E afinal nem jaula ia haver... mas efectivamente era o que eu mais queria. O Bryce disse-nos que podíamos ir indo para a água enquanto ultimava alguns detalhes até se juntar a nós. Éramos 3 mulheres e 2 homens e a minha amiga, que ia permanecer na embarcação. Fui a primeira a saltar para a água.


Mal olho para as profundezas do infinito e transparente azul daquele mar, vi logo o primeiro tubarão. Gritei para o Bryce: "there's one here!" De imediato saltou para a água. Era o primeiro de 15 tubarões que se começavam a aproximar de nós e a circundar-nos durante as horas que se seguiram.


O Bryce, vestia t-shirt e calções e esse era o seu uniforme de trabalho. Habituado a receber equipas do National Geographic, de segunda a domingo, não fazia mais nada para além disto há mais de 11 anos. Entretanto as duas outras raparigas e os homens entraram na água. O Bryce pediu-nos para nos mantermos junto à embarcação, que estava muito agitada devido à ondulação, depois de ter atirado à água uma caixa de plástico quadrada onde tinha encerrado alguns peixes inteiros ou em pedaços para atrair os tubarões e que ficava na ponta de um cabo, atado à embarcação. Com o tempo a passar tínhamos os tais 15 tubarões que começaram a ficar efectivamente muito curiosos tornando os seus círculos mais reduzidos, em torno da caixa.


O Bryce ia puxando o cabo para a caixa ir subindo, e por sua vez os tubarões ficarem cada vez mais perto de nós. Ao mesmo tempo, apertava com alguma delicadeza, uma garrafa de 33ml de plástico, cujo som funcionava como um comando: caso se estivessem a afastar, ao ouvirem o ruído plástico, os tubarões invertiam a rota e voltavam-se automática e velozmente na direção do som, como se de um campo magnético se tratasse. Este som é interpretado pelos tubarões como uma potencial presa. Levámos cerca de uma hora para conquistarmos a confiança dos tubarões. Entretanto já só eram 8.


Como estavam mais perto, já se conseguiam distinguir quais as espécies: "Duskies", "Bull Shark" e "Tiger Sharks". O frenesim aumentava e os círculos concêntricos começavam a deixar de ter um padrão, muitas vezes desapareciam do nosso campo de visão para aparecerem do lado oposto ao que estavam. O nosso líder, no "briefing", tinha avisado que poderia ter que nos 'convidar' a subir à embarcação caso observasse uma alteração de comportamento dos animais. Os tubarões começavam a fazer rasantes às nossas pernas e a velocidade a aumentar em cada passagem.


Eu emitia alguns gemidos, que eram uma mistura de adrenalina com 'mas o que é que eu estou aqui a fazer?' O Bryce tirava a cabeça fora da água e com o indicador espetado junto à boca pediam-me silêncio. Olhava para baixo de água e contava-os: '1, 2, 3.... Ok: 8!' Havia alturas que por mais rodasse sobre mim mesma não conseguia localizar 1 ou 2, depois lá os via virem na minha direção. O meu cérebro, o coração e o instinto de sobrevivência, entravam em conflito constante: o cérebro estava consciente, pela longa aprendizagem, que os tubarões não atacam assim; o coração dizia-me: 'vieste aqui para vivenciares isto!'; o instinto de sobrevivência mandava-me literalmente fugir daquela situação! Para resolver o conflito decidi que cada vez que um tubarão viesse na minha direcção era só tirar a cabeça de dentro de água, pois não iria assistir caso me mordesse uma perna. Portanto era este o nível de discernimento utilizado para a resolução do conflito interno. Naturalmente optei pela solução mais absurda possível, como se vê!


Vivia toda esta confusão mental quando ouvimos o Bryce, com a sua voz de comando inigualável ordenar-nos: 'Guys! Back to the boat!' Não foi preciso dar a ordem uma segunda vez. Era altura de subir rapidamente as pequenas escadas da embarcação pois a tal mudança de comportamento tinha acontecido. Dentro de água só tinha permanecido eu, uma das raparigas e um dos homens. Há já algum tempo que os outros dois elementos tinham abandonado a experiência e estavam a fazer companhia à minha amiga, pois não tinham conseguido aguentar o índice de adrenalina e medo dentro de água, no centro das atenções dos tubarões. Quando subimos as escadas, a atrapalhação foi tal que um homem se feriu num pé, ficando a sangrar. Corações a bater e risos nervosos acompanharam a nossa chegada ao "deck". Uma nova fase ia começar.


No deck, reunimo-nos num dos lados da embarcação, onde o Bryce tinha uma espécie de bandeja para cortar peixe aos pedaços. Ia ao mesmo tempo explicando o que ia fazendo e contando alguns episódios dos seus 11 anos de experiência. Em consequência, sangue dos peixes ia escorrendo para a água. Quando achou que tinha isco suficiente, passou um cabo por uma das cabeças de peixe (sem qualquer anzol. Justamente por estes detalhes tinha seleccionado esta empresa pois não havia risco algum de fazer mal aos tubarões) e deu um nó. A ideia era atirar para longe este isco gigante e puxá-lo na direcção do barco por forma a atrair os tubarões, mas sem os magoar, fosse de que maneira fosse.


Os tubarões são seres muito observadores e cautelosos. Ao contrário do que habitualmente é veiculado, não investem contra nada sem antes terem feito uma análise cuidadosa e cautelosa que lhes garanta segurança na decisão que vão tomar, por isso aquela imagem típica de tubarões a fazerem círculos é tão comum, mas muito pouco contextualizada.


Bryce atirou várias vezes o isco ao largo da embarcação, até que finalmente 3 dos 'nossos' tubarões demonstraram interesse. Ora apareciam, ora desapareciam, curiosos pelo isco mas cautelosos perante a situação. Faziam abordagens ao isco mas não o abocanhavam. Até que se começa a notar o frenesim próprio de um animal selvagem na hora de comer. Começavam a sair um pouco mais fora de água para abocanharem a "refeição". E é a primeira vez, que sem a máscara de mergulho (que normalmente altera o tamanho de tudo que esteja no campo de visão debaixo de água), vejo a real dimensão dos tubarões que há instantes nos rodeavam dentro de água. Tinham cerca de 3 metros, ou mais, e tinham permanecido apenas os tubarões tigre. Durante algum tempo fizeram várias incursões ao Isco, até que o peixe desapareceu e uma parte do cabo também... perante os olhares esbugalhados de todos. O cabo tinha cerca de 3 cm de espessura.


Bryce então desafiou-nos para a terceira etapa: voltarmos à água para dar comida à boca aos tubarões. Os animais nesta altura já tinha perdido a 'timidez' e os instintos de caça juntamente com as hormonas naturais, numa circunstância destas, estavam no auge. A adrenalina aumentava também em nós.


As instruções eram agora um pouco mais específicas, pois acima de tudo o Bryce primava pela segurança e proteção de todos: quando entrássemos na água, tínhamos não só que permanecer agarrados às escadas da embarcação, mas também agarrados uns aos outros e ao Bryce, de maneira a que parecêssemos um só corpo.


Faça-se uma analogia: qualquer ser humano para saber ou aprender de que algo é constituído ou do que se trata, agarra com as mãos e recorre ao tacto para a identificação. Quantas vezes pais e mães se afligem tanto porque os bebés levam tudo à boca. A boca em terra idade também faz parte do processo de identificação do que nos rodeia.


Os tubarões têm detectores electromagnéticos muito desenvolvidos e evoluídos (ampolas de laurenzini) no seu focinho, a visão é também extremamente poderosa, mas para saberem se algo é comestível ou não, como não têm mãos, têm que 'ver' e 'sentir' tudo com a boca. Erradamente se acha que somos comida de tubarão e por isso, no máximo 5 vezes por ano, vemos notícias sensacionalistas sobre algum tubarão que 'atacou' um surfista ou um banhista. Erradamente se assume que o tubarão quis comer o surfista ou o banhista.


Na verdade do ponto de vista do tubarão, aquela espécie, com aquela forma, com aquele movimento de braços e os ruídos ao chapinhar na superfície da água, vista das profundezas, parece-lhe uma foca, essa sim, alimento de tubarão. Demora algum tempo, analisa a situação, faz círculos, e só depois de vários factores reunidos, decide ir ver se é comida ou não. O tubarão só morde uma vez. Claro que para o ser humano isto é brutal e pode ser fatal, mas só morde uma vez, pois identifica com a boca do que somos constituídos e percebe que não somos alimento, e segue a sua rota.


Morre-se mais por dia nas estradas em acidentes automobilísticos, do que ataques de tubarões por ano! O rácio é esse. No último século o homem tem estado com mais frequência no mar, e por outro lado, os recursos no mar são cada vez menores, as cadeias tróficas estão cada vez mais alteradas e os tubarões e outras espécies, estão cada vez mais a aproximar-se das zonas costeiras. Quando vamos para o mar temos que ter noção que este não é o nosso "habitat" natural é que somos nós que o estamos a invadir, sem termos sido convidados. E tal como recebemos convidados em nossa casa, há regras de protocolo a serem respeitadas. E o ser humano cada vez as respeita menos. Além de que, visitar espécies selvagens nas suas respectivas 'casas', significa ter sempre presente que nos estamos a sujeitar a um elemento que não é nosso e que por isso mesmo acarreta riscos naturais, que temos que aceitar e nunca revoltarmo-nos contra as regras.


Assim, mantendo-nos todos juntos e demonstrando ser uma mole com uma dimensão considerável, que normalmente intimida um tubarão, evitava que viessem 'ver' com a boca de que espécie eramos nós todos juntos, e se seríamos comestíveis.


O líder desta massa humana, composta por mim, uma das raparigas americanas, e um dos homens, era o Bryce, o único que podia ter um braço esticado, para fora deste conjunto de corpos, pois servia de dispensador de peixe aos tubarões, que efectivamente, depois de cerca de 5 horas de 'apresentações' já se tinham deixado de 'cerimónias' pois sentiam que não corriam qualquer risco, e faziam-nos rasantes velozes para apanharem da mão do Bryce os suculentos pedaços de peixe.


Era muito difícil não emitirmos sons. A adrenalina que corria nos nossos corpos e os instintos primários que a Natureza durante milhões de anos de evolução nos entregara de bandeja, estavam completamente activos e enviavam sinais ao nosso cérebro para abandonarmos de imediato a experiência, somando ainda todas as notícias negativas, resultado de desinformação, que sempre ouvimos nos médias quando algo envolve um tubarão e um ser humano.


Com o desenrolar frenético dos acontecimentos, todos aguentámos, tentando calar os ruídos que involuntariamente escapavam perante este espetáculo estonteante e maravilhoso, ao mesmo tempo. Participar num momento destes, com animais selvagens, que obedecem apenas aos seus instintos e não a comandos dados por 'treinadores' em cativeiro, era participar num processo natural, e ver de perto uma das espécies que mais evoluiu e se adaptou ao longo dos tempos, sendo uma das mais perfeitas máquinas que a Natureza criou. Afinal tinha sido por isto mesmo que me tinha metido num avião, viajado 8 horas, conduzido 3, e tido insônia por antecipação da experiência. Em simultâneo ouvia o eco das palavras do meu pai: 'Não deixes dedos fora da jaula!' E ali estava eu. A uma hora da Florida, que mal se distinguia no horizonte, e a duas das Bahamas, no meio do mar, com um barco à deriva, sem jaula, rodeava de tubarões, que o Bryce alimentava à mão, como se de uma inocente criança se tratasse, no Parque, a dar de comer aos peixinhos dourados do lago. Ao mesmo tempo parecia que estava a sonhar, pois de realidade parecia ter pouco.


Quando se acabou o peixe, foi a altura de subir à embarcação, mas não podia ser sem método. Afinal esta mole humana tinha que se 'desmembrar' dentro de água para subir ordenadamente, um a um, pelas escadas. O Bryce não tirava os olhos do grupo de tubarões para perceber o seu comportamento. Eles teriam de se acalmar, perder o interesse e seguir as suas rotas, para que o nosso líder nos convidasse a subir. Assim aconteceu, depois de alguns minutos e de muitos batimentos cardíacos acelerados.


Seis horas depois, de volta a bordo, apesar da vivida experiência, ninguém falava muito; ela tinha sido muito para além dos sentidos e das emoções. Inesquecível.


Não sou bióloga de formação (embora este ano tenha frequentado aulas de mestrado de biologia marinha na Faculdade de Ciências de Lisboa), tenho muito menos mergulhos do que seria de esperar, pela minha falta de disponibilidade, mas coisas simples como usar o bom senso e entender que temos que procurar informações antes de presumir algumas conclusões que nos dão já mastigadas, ou fazer filtros / seleccionar o que nos invade por todas as vias, é algo fundamental. A importância das fontes é crucial. E de preferência evitar visitar a 'Natureza' em cativeiro, pois de natural já tem pouco.


Hoje, e desde há uns anos, que com o respeito, fruto de estudo, regras de protocolo, que considero obrigatórias por estar a visitar uma 'casa' que não é a minha, mergulhos profundos (30m), nadar com tubarões, mergulhar em navios naufragados, o mar é efectivamente o meu elemento.


"Danças...com tubarões" - Uma experiência inesquecível, Photo Bart Bove
"Danças...com tubarões" - Uma experiência inesquecível
"Danças...com tubarões" - Uma experiência inesquecível
"Danças...com tubarões" - Uma experiência inesquecível, Photo Dianne Weinberg
"Danças...com tubarões" - Uma experiência inesquecível
"Danças...com tubarões" - Uma experiência inesquecível
"Danças...com tubarões" - Uma experiência inesquecível, Photo Heather Oshaughnessy
"Danças...com tubarões" - Uma experiência inesquecível
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"Danças...com tubarões" - Uma experiência inesquecível
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