Novos Horizontes do Tempo: Do Asfalto do Ciclismo à Alta Joalharia

bf420d8b2f9946d0239dba10aad0d7ad.jpg

Estamos mal-habituados àquela velha e gasta associação entre as marcas de relógios e os desportos motorizados. A velocidade, a tecnologia de ponta, o glamour – é um casamento óbvio. Mas e a bicicleta? Aquele meio de transporte bem mais lento, rudimentar e, sejamos honestos, suado? Na indústria relojoeira, as colaborações de luxo costumam piscar o olho à Fórmula 1, às regatas, ao ténis ou ao golfe – mundos altamente valorizados pela sua proeza técnica ou pela sua imagem elitista e de bolsos fundos. Será então o ciclismo a nova (e mais alternativa) F1 para marcas que vão desde a Tissot à Bremont?

Não é de estranhar que um dos mais recentes modelos da Tissot dê nas vistas precisamente por quebrar o molde e aliar-se ao ciclismo. O seu Pinarello Special Edition nasceu de um frente-a-frente com a mítica marca italiana de bicicletas de corrida. E os pontos de contacto não são meras manobras de marketing: o relógio utiliza o mesmo carbono forjado que a Pinarello aplica nos seus quadros. A poesia da coisa vai mais além, com a posição invulgar da coroa às 10 horas a espelhar o design aerodinâmico Fork Flap da Pinarello. O ponteiro dos segundos partilha o exato mesmo tom de azul das bicicletas, e o mostrador cinzento e granulado é uma lembrança daquele alcatrão que os ciclistas rezam para não conhecer de muito perto.

Sylvain Dolla, o diretor-geral da Tissot, atira que o mundo do ciclismo tem sido cronicamente ignorado pelos relojoeiros. “Há dois mil milhões de pessoas a andar de bicicleta, por isso, se conseguirmos chegar a uma ínfima fração disso, já é um excelente público-alvo”, brinca. O ciclismo disparou nos últimos anos, ganhando um alcance transversal. Mas é também um desporto onde a exigência mecânica e a proeza técnica chegam a extremos impressionantes, partilhando um ADN muito próprio com a alta relojoaria.

A Tissot sabe do que fala. Desde os anos 60 que recompensa vencedores com relógios comemorativos e é a cronometrista oficial daquele autêntico pesadelo logístico que é o Tour de France, garantindo equipamento capaz de separar dois ciclistas por uns meros 3/10.000 de segundo — um rigor absoluto, como ficou provado no photo finish de 2017.

A marca também já tomou conta do tempo no Giro d’Italia, embora essa tarefa tenha passado para as mãos da Tudor em 2023. No ano passado, a Tudor, que patrocina uma equipa profissional, lançou um cronógrafo de edição limitada com detalhes em rosa, uma vénia ao vencedor da prova transalpina e à sua icónica maglia rosa. A Breitling e a Richard Mille não lhes ficam atrás, patrocinando equipas e fornecendo modelos de catálogo aos ciclistas.

Ainda assim, a relação entre relógios e ciclismo parece continuar a apalpar terreno. Ao contrário dos cronómetros automobilísticos ou dos relógios de regata, não há propriamente uma utilidade funcional clara para um relógio mecânico enquanto se pedala, por muito que a estrada seja o derradeiro teste de esforço à leveza e durabilidade. Muitos ciclistas nem sequer usam relógios e, os que o fazem, cumprem obrigações de patrocínio. Dolla não deixa a ironia de lado: “Eu gosto de boxe e não tenho a certeza de que consigamos inventar um relógio para isso também.”

A Estética Como Ponto de Partida

A maré está, contudo, a mudar, virando costas à obsessão técnica para abraçar o lifestyle. A Bremont percebeu isso mesmo em 2022, ao colaborar com a Rapha no seu relógio MBIII. “Grande parte do apelo do ciclismo reside na estética”, defende Giovanni Moro, cofundador da Unimatic, marca que desenhou um tool watch (com o seu movimento de quartzo resistente a choques na sua primeira caixa em titânio) em parceria com a MAPP, uma marca australiana de roupa de ciclismo com muita pinta.

É o primeiro relógio da MAPP e a lógica é simples: ambas as indústrias enfrentam o desafio de pegar num objeto essencialmente simples e explorar novas técnicas de fabrico e materiais. Moro confessa que o importante é que o relógio tenha estilo, independentemente de quem o compra adorar ciclismo ou não. Ele próprio não é grande fã das duas rodas, mas aprecia o prestígio que rodeia esse universo. A Unimatic já está em conversações com uma marca italiana de bicicletas para uma nova peça. Moro não avança nomes, mas nota que as bicicletas de corrida são puros objetos de luxo; não quereria andar numa, mas pendurava-a na parede do escritório sem pestanejar.

A Subversão Floral e o Luxo Puro

Se por um lado a relojoaria desce à estrada para captar novos públicos através de uma estética utilitária, por outro, há quem mergulhe a fundo na herança do luxo em estado puro. A Louis Vuitton provou recentemente que a velha máxima “florais para a primavera não são novidade” pode, afinal, ser subvertida com mestria.

A maison francesa pegou na sua linha de joalharia Color Blossom e arrastou-a para território virgem, criando um relógio inspirado na emblemática Monogram Flower. É a primeira incursão da linha de alta joalharia no mundo dos relógios, cimentando a expansão da marca para a alta relojoaria, um percurso iniciado em 2011 com a aquisição da manufatura La Fabrique du Temps.

“Queríamos reinterpretar uma coleção de joalharia icónica, apresentando um relógio feminino com alma de joia”, explica Matthieu Hegi, diretor artístico da La Fabrique du Temps.

No centro da caixa em formato de seixo, com uns delicados 26 mm, mora o famoso trevo arredondado de quatro folhas, criado por Georges Vuitton em 1896 com inspiração nos movimentos Art Nouveau e Gótico, e nos tradicionais brasões de família japoneses (mon). O vidro de safira curvo é cortado exatamente na forma da flor, abrindo a vista para o mostrador em pedra dura logo abaixo, num design rematado por uma coroa também em forma de flor e bracelete em pele.

O relógio surge em quatro estilos distintos: aço com madrepérola branca, ouro rosa com madrepérola em tons de blush, e ouro amarelo com amazonite turquesa. A estrela da companhia é a versão em ouro rosa cravada com mais de 100 diamantes brancos, roçando um quilate. A complexidade não se ficou pelos materiais preciosos. Os mostradores contam com uma calha de minutos em formato de via-férrea que acompanha a curva de cada pétala. Estampar esta calha sem partir as fatias minerais ou orgânicas — que medem entre 0,3 e 0,6 milímetros de espessura — exigiu cálculos cirúrgicos, sendo cada mostrador polido à mão.

Esta peça, que aterra nas boutiques a 12 de junho, tem preços a arrancar nos 4.600 euros (cerca de $5.400) para a versão em aço, trepando até aos 19.000 euros ($22.100) para a edição em ouro rosa com diamantes, com novas variações de pedras prometidas para os próximos anos.